:::neste dia:::
Neste dia volto ao dândi
Respiro campos elíseos
Enquanto caço Renatas
Paz de galgar vermelho
Neste dia subo ao trono
Quase me sinto primeiro
Enquanto me remeto
Mão esquerda no peito
Neste dia sem Leonor
Quero alma pr'espremer
Doença já não me dá
Rabearia num cometa
Mas se meu grito for cego
Me mato ao som de Iggy Pop
27cc de mau humor bidestilado intravenoso
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
Et Coetera
:::ET ALII:::
Desbravo sentado devaneios alheios. Citações sem fundamento me opilam o fígado enquanto pestanejo pesaroso, sentado na minha empáfia semântica tal qual um doutor que diagnostica o vazio de um plasma sem hemácias. Cansado do cancro infeccioso das citações, percebo que ninguém mais sabe falar por si, ou escrever de dentro pra fora. Na neurolinguística virtual, o SNC de Gaia cuja Mnemosine se chama Google, os abjetos metidos a literatos entoam orações alheias para falar de si, porém sem o tesão dos aedos ou a circunstância dos bardos. Sim, pois os antigos cantavam SOBRE, COM e PARA os deuses, e hoje o samba do afrobrasileiro degringolou de tal forma que os sentidos se confundem de citação em citação. Desejo espontaneidade. Anseio por surpresa. Torço pra que, um belo dia, eu volte a ler algo realmente vomitado no chão do bar, e não na lápide de algum sociólogo. Espero que o mundo virtual, a Babel de Morín, se torne mais do que um compêndio de conteúdos programáticos mal interpretados, desejo intumescido que varíolas e infecções afins se apossem de todos os emails motivacionais com florzinhas, gatinhos e cafonas pôr-de-sóis que erroneamente atribuem respostas rasas de Seicho-No-Ie a Chaplin, que alguém acorde e perceba que Einstein jamais foi filósofo ou supervisor de RH.
Percebam, incautos leitores, que tomar como suas palavras de Ghandi, Rousseau, Napoleão ou Elza Soares não faz de ninguém mais intelectualmente respeitável ou passível de admiração. Citar Drummond, Kierkegaard ou Piaget não dá asas à cobra. Paulo Coelho, Bob Marley ou Vinícius, não interessa. Eles não viveram a SUA vida pra transcrever os SEUS processos, suas agruras ou suas impressões vazias. Para escrever sobre si, pense sobre si. Reflita sobre si. Atinja o objetivo comunicacional por si. Conclua, reinicie, repense, conteste. Pior que plágio intelectual, só plágio sentimental.
Sic et simpliciter.
Desbravo sentado devaneios alheios. Citações sem fundamento me opilam o fígado enquanto pestanejo pesaroso, sentado na minha empáfia semântica tal qual um doutor que diagnostica o vazio de um plasma sem hemácias. Cansado do cancro infeccioso das citações, percebo que ninguém mais sabe falar por si, ou escrever de dentro pra fora. Na neurolinguística virtual, o SNC de Gaia cuja Mnemosine se chama Google, os abjetos metidos a literatos entoam orações alheias para falar de si, porém sem o tesão dos aedos ou a circunstância dos bardos. Sim, pois os antigos cantavam SOBRE, COM e PARA os deuses, e hoje o samba do afrobrasileiro degringolou de tal forma que os sentidos se confundem de citação em citação. Desejo espontaneidade. Anseio por surpresa. Torço pra que, um belo dia, eu volte a ler algo realmente vomitado no chão do bar, e não na lápide de algum sociólogo. Espero que o mundo virtual, a Babel de Morín, se torne mais do que um compêndio de conteúdos programáticos mal interpretados, desejo intumescido que varíolas e infecções afins se apossem de todos os emails motivacionais com florzinhas, gatinhos e cafonas pôr-de-sóis que erroneamente atribuem respostas rasas de Seicho-No-Ie a Chaplin, que alguém acorde e perceba que Einstein jamais foi filósofo ou supervisor de RH.
Percebam, incautos leitores, que tomar como suas palavras de Ghandi, Rousseau, Napoleão ou Elza Soares não faz de ninguém mais intelectualmente respeitável ou passível de admiração. Citar Drummond, Kierkegaard ou Piaget não dá asas à cobra. Paulo Coelho, Bob Marley ou Vinícius, não interessa. Eles não viveram a SUA vida pra transcrever os SEUS processos, suas agruras ou suas impressões vazias. Para escrever sobre si, pense sobre si. Reflita sobre si. Atinja o objetivo comunicacional por si. Conclua, reinicie, repense, conteste. Pior que plágio intelectual, só plágio sentimental.
Sic et simpliciter.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Et Coetera: A IDADE DA DESCRENÇA
:::post só se faz sozinho, como blues só se faz com barriga vazia:::
Útero.
Tudo é conforto, aconchego, amor. Dormir, comer, respirar, tem alguém que faz tudo isso pra mim. Nem preciso usar roupas. Uma grossa camada de líquido me separa do que eu nem espero que me aguarda.
Nasci.
Nascer, por si só, já foi horrível. Horas de esforço, aperto, me jogando pra um mundo desconhecido, até que alguém passa uma lâmina bem pertinho de mim e me puxa prum mundo de claridade, barulho, frio e esforço. Ah, o esforço. Pra respirar já foi difícil, tiveram que me colocar um aparelho pra desempenhar essa tarefa para o qual eu nunca havia feito treinamento. Meu primeiro contato com a virtualização segundo Kerchkove (ou era Lévy?) já era violento e invasivo. Pelo menos as roupas são confortáveis.
Infância.
Os primeiros passos, os primeiros tombos. As primeiras palminhas, as primeiras palmadas. Ainda que os traumas já começassem a cutucar nos meus ombrinhos, eu cria piamente que havia uma espécie de aura imaculável que me protegia toda vez que os meus adultos de estimação estavam do meu lado. E era essa aura que eu me afligia pra enxergar quando os adultos de estimação me deixavam fechado dentro do carro, tendo, como companhia, somente aquelas vozes que saíam do painel do Valente, um chevettinho 77 cujo radiador já dava sinais de osteosporose. Aquelas vozes, talvez por terem sido minha única companhia tantas vezes, se tornariam meu futuro objeto de estudo, mas isso é assunto pra outros carnavais. Um dia eu ainda teria muita vergonha das roupas que eu vestia, mas não posso culpar meus adultos, eram os anos 80.
Adolescência
Opa, agora sim. Eu sou o dono do mundo, tenho o controle total da minha vida, já aprendi tudo que podia e deixei todas aquelas brincadeiras e ilusões pra trás, junto com as roupas que minha mãe escolhia pra me vestir. Ledo engano. Eu sequer faço parte, sequer sou notado pelo mundo. Controle? Eu ainda nem descobri as nuances dessa palavra. Aprendo que não sei nada, e isso é horrível, a lição se distancia cada vez mais, me sinto como se corresse na contramão, mas concordo com todos os coleguinhas: Sexo é bom, eu já fiz e é assim assado. Mentiroso de uma figa. Começo a sentir falta das brincadeiras, ainda não percebo que alimento as mesmas ilusões, só mudaram os objetos. E infelizmente minha mãe ainda escolhe minhas roupas.
Salto triplo narrativo.
2008.
Bons tempos aqueles... Do que eu reclamava mesmo? Aliás, sobre o que eu ia escrever mesmo? Ah é, descrença... Ah, quando eu acreditava que iria mudar o mundo. Acreditava que estava bonito quando ia pras festinhas de colégio com aqueles sapatos de camurça! Dá pra acreditar? Creio eu que aquela garota está me olhando. Crente que tá abafando hein?! Crente de que? Temente a quem? Deus? Qual? Marx já disse: a religião é o ópio do povo. Mas eu não acredito que você ainda perca tempo de ler Marx, papai smurf ultrapassado! Eu acho que, se estivesse vivo, Marx hoje estudaria não as relações de trabalho, mas as "relações de desemprego". Mas eu acho, num acredito, num confirmo empiricamente, é suposição. Ou seja, balela. Como eu posso acreditar em algo que você meramente SUPÕE? Aos 25 anos, eu descobri que o mundo inteiro é uma grande balela. Descobri que a ilusão era a maior alegria que eu podia me proporcionar, descobri que tudo é fumaça e espelhos, que eu nunca vou mudar o mundo e que tudo é mais bonito quando se acredita. A luta é linda pra quem acredita que vai ganhar, o céu é lindo pra quem acredita que vai pra lá quando morrer, o futuro é lindo pra quem acredita que casou com a pessoa certa. Descobri que crescer é viver no presente, onde o confronto com o mundo real é constante e irreversível, descobri que eu só acredito no que eu tenho na mão, descobri que nenhum discurso é verdade absoluta e descobri que a maioria dos questionamentos só leva a mais perguntas. Ou mais frustrações. Descrevo a crença como a abençoada habilidade de não enxergar a própria vida, e eu aprendi muito bem o tamanho do meu espaço no mundo, que varia entre o matematicamente desprezível e 2,85%, no máximo, dependendo do contexto. Pelo menos, hoje em dia, eu escolho as minhas roupas. Creio eu...
Útero.
Tudo é conforto, aconchego, amor. Dormir, comer, respirar, tem alguém que faz tudo isso pra mim. Nem preciso usar roupas. Uma grossa camada de líquido me separa do que eu nem espero que me aguarda.
Nasci.
Nascer, por si só, já foi horrível. Horas de esforço, aperto, me jogando pra um mundo desconhecido, até que alguém passa uma lâmina bem pertinho de mim e me puxa prum mundo de claridade, barulho, frio e esforço. Ah, o esforço. Pra respirar já foi difícil, tiveram que me colocar um aparelho pra desempenhar essa tarefa para o qual eu nunca havia feito treinamento. Meu primeiro contato com a virtualização segundo Kerchkove (ou era Lévy?) já era violento e invasivo. Pelo menos as roupas são confortáveis.
Infância.
Os primeiros passos, os primeiros tombos. As primeiras palminhas, as primeiras palmadas. Ainda que os traumas já começassem a cutucar nos meus ombrinhos, eu cria piamente que havia uma espécie de aura imaculável que me protegia toda vez que os meus adultos de estimação estavam do meu lado. E era essa aura que eu me afligia pra enxergar quando os adultos de estimação me deixavam fechado dentro do carro, tendo, como companhia, somente aquelas vozes que saíam do painel do Valente, um chevettinho 77 cujo radiador já dava sinais de osteosporose. Aquelas vozes, talvez por terem sido minha única companhia tantas vezes, se tornariam meu futuro objeto de estudo, mas isso é assunto pra outros carnavais. Um dia eu ainda teria muita vergonha das roupas que eu vestia, mas não posso culpar meus adultos, eram os anos 80.
Adolescência
Opa, agora sim. Eu sou o dono do mundo, tenho o controle total da minha vida, já aprendi tudo que podia e deixei todas aquelas brincadeiras e ilusões pra trás, junto com as roupas que minha mãe escolhia pra me vestir. Ledo engano. Eu sequer faço parte, sequer sou notado pelo mundo. Controle? Eu ainda nem descobri as nuances dessa palavra. Aprendo que não sei nada, e isso é horrível, a lição se distancia cada vez mais, me sinto como se corresse na contramão, mas concordo com todos os coleguinhas: Sexo é bom, eu já fiz e é assim assado. Mentiroso de uma figa. Começo a sentir falta das brincadeiras, ainda não percebo que alimento as mesmas ilusões, só mudaram os objetos. E infelizmente minha mãe ainda escolhe minhas roupas.
Salto triplo narrativo.
2008.
Bons tempos aqueles... Do que eu reclamava mesmo? Aliás, sobre o que eu ia escrever mesmo? Ah é, descrença... Ah, quando eu acreditava que iria mudar o mundo. Acreditava que estava bonito quando ia pras festinhas de colégio com aqueles sapatos de camurça! Dá pra acreditar? Creio eu que aquela garota está me olhando. Crente que tá abafando hein?! Crente de que? Temente a quem? Deus? Qual? Marx já disse: a religião é o ópio do povo. Mas eu não acredito que você ainda perca tempo de ler Marx, papai smurf ultrapassado! Eu acho que, se estivesse vivo, Marx hoje estudaria não as relações de trabalho, mas as "relações de desemprego". Mas eu acho, num acredito, num confirmo empiricamente, é suposição. Ou seja, balela. Como eu posso acreditar em algo que você meramente SUPÕE? Aos 25 anos, eu descobri que o mundo inteiro é uma grande balela. Descobri que a ilusão era a maior alegria que eu podia me proporcionar, descobri que tudo é fumaça e espelhos, que eu nunca vou mudar o mundo e que tudo é mais bonito quando se acredita. A luta é linda pra quem acredita que vai ganhar, o céu é lindo pra quem acredita que vai pra lá quando morrer, o futuro é lindo pra quem acredita que casou com a pessoa certa. Descobri que crescer é viver no presente, onde o confronto com o mundo real é constante e irreversível, descobri que eu só acredito no que eu tenho na mão, descobri que nenhum discurso é verdade absoluta e descobri que a maioria dos questionamentos só leva a mais perguntas. Ou mais frustrações. Descrevo a crença como a abençoada habilidade de não enxergar a própria vida, e eu aprendi muito bem o tamanho do meu espaço no mundo, que varia entre o matematicamente desprezível e 2,85%, no máximo, dependendo do contexto. Pelo menos, hoje em dia, eu escolho as minhas roupas. Creio eu...
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